Manuel Vicente reconhece falhas de Angola nos acordos de financiamento com a China

O antigo vice-presidente da República, Manuel Vicente, considera que Angola poderia ter obtido condições mais favoráveis nos acordos de financiamento celebrados com a China. Para o antigo governante, os termos menos vantajosos resultaram sobretudo da forma como Angola conduziu as negociações, e não de uma suposta estratégia de exploração por parte de Pequim.

A declaração foi feita numa entrevista ao Asia Pacific Research Circle (APRC), na qual Manuel Vicente recordou as circunstâncias que levaram Angola a aproximar-se da China após o fim da guerra civil, em 2002. Segundo explicou, cerca de duas semanas depois do fim do conflito, o país procurou apoio financeiro junto dos Estados Unidos, do Clube de Paris, do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, mas não obteve a assistência pretendida.

Foi nesse contexto que Luanda intensificou a cooperação financeira com Pequim, recorrendo a empréstimos garantidos por receitas petrolíferas através do chamado “modelo angolano”. A dívida chegou a superar os 42 mil milhões de dólares ao longo de cerca de duas décadas, embora tenha começado a diminuir depois de Angola deixar de recorrer, em 2017, a novos financiamentos chineses garantidos por petróleo.

Manuel Vicente entende que, apesar da diferença de capacidade negocial entre Angola e a China, cabia às autoridades angolanas defender de forma mais firme os interesses nacionais. O antigo vice-presidente defendeu, por outro lado, que o país deve apostar no processamento interno dos seus recursos, destacando a refinaria do Lobito, actualmente em construção, e fortalecer as relações comerciais dentro de África.

Na mesma entrevista, Manuel Vicente questionou ainda algumas análises internacionais sobre Angola. Na sua perspectiva, parte dos especialistas estrangeiros que comentam a realidade angolana não conhece suficientemente o país, por nunca ter estado no terreno.