O mais importante é resolver os problemas do povo

Por: Professor Ulisses Lufundisso

Hoje, 17 de Setembro, Angola assinala mais um aniversário natalício de António Agostinho Neto, figura central da luta de libertação nacional e primeiro Presidente da República de Angola. Foi a 11 de Novembro de 1975 que, perante África e o Mundo, proclamou a Independência Nacional.

Mais do que recordar Agostinho Neto, as suas fotografias, os seus discursos e os seus feitos, talvez devêssemos parar para reflectir sobre algumas das frases que continuam a ecoar décadas depois da sua morte.

Uma delas é particularmente conhecida: “O mais importante é resolver os problemas do povo.” É uma frase simples, mas profundamente política e que continua a colocar uma questão pertinente: será que estamos, de facto, a resolver os problemas do povo?

Passaram-se 50 anos desde a Independência Nacional. Angola conquistou a soberania, atravessou uma longa guerra civil e alcançou a paz. Houve conquistas importantes, mas também permanecem desafios que afectam a vida de muitos cidadãos. Angola continua, para muitos, a ser um sonho por realizar.

A economia continua a enfrentar dificuldades que pesam sobre as famílias. A corrupção permanece um dos grandes desafios da sociedade. A juventude procura oportunidades de emprego e melhores condições para construir o seu futuro. A educação enfrenta necessidades de melhoria e o sector da saúde continua a exigir melhores condições para responder às necessidades da população.

Diante deste cenário, precisamos perguntar: como estamos a honrar o legado de Agostinho Neto?

Não se trata apenas de saber se continuamos a celebrar o seu aniversário. Isso fazemos todos os anos. A questão é saber se conseguimos transformar os princípios associados ao seu pensamento em práticas concretas de governação e de cidadania.

Homenagear Neto não pode significar apenas colocar flores, organizar cerimónias, fazer discursos e repetir frases históricas. Homenageá-lo também deveria significar olhar para o cidadão que procura emprego, para a família que enfrenta dificuldades para colocar comida na mesa, para o jovem que termina a universidade sem encontrar uma oportunidade, para o estudante que precisa de melhores condições, para o paciente que procura atendimento médico e para o cidadão que espera que a justiça funcione.

Agostinho Neto deixou também outras reflexões que continuam a ser revisitadas. Uma delas é a conhecida frase sobre África como “um corpo inerte” sobre o qual cada abutre procura retirar o seu pedaço. A expressão é associada às intervenções de Neto sobre o colonialismo, o imperialismo, a soberania africana e a exploração dos recursos do continente.

É uma reflexão que nos convida a pensar sobre a relação entre África, os seus recursos e os interesses externos. E, olhando para Angola, outra pergunta merece ser feita: será que estamos a conseguir transformar a enorme riqueza do nosso país em prosperidade para a maioria dos angolanos?

Angola possui petróleo, diamantes, terras férteis, água, minerais e uma localização estratégica. É também um país que desperta o interesse de diferentes actores internacionais. O desafio não está necessariamente em receber investimento estrangeiro ou estabelecer relações de cooperação com outros países, mas em garantir que essas relações contribuam para o desenvolvimento nacional e para a melhoria das condições de vida dos angolanos.

Porque uma Angola rica em recursos, mas onde muitos cidadãos ainda enfrentam dificuldades económicas e sociais, representa um desafio que não pode ser ignorado.

Não devemos transformar Agostinho Neto numa figura distante do passado, cuja memória serve apenas para cerimónias. Devemos estudar o seu pensamento, compreender o contexto em que viveu, conhecer os seus feitos e, sobretudo, discutir o que do seu legado continua relevante para Angola de hoje.

A juventude precisa de compreender que patriotismo não é apenas vestir as cores da bandeira, cantar o hino ou publicar uma fotografia de Neto nas redes sociais.

Patriotismo também é estudar. É trabalhar. É produzir. É respeitar o bem público. É rejeitar a corrupção. É exigir responsabilidade aos governantes. É cumprir os nossos deveres enquanto cidadãos. É acreditar que Angola pode ser melhor e, sobretudo, fazer alguma coisa para que seja.

A verdadeira homenagem aos homens que fizeram parte da história de Angola não está apenas na quantidade de vezes que pronunciamos os seus nomes. Está também naquilo que fazemos com o país que eles ajudaram a construir.

Por isso, neste aniversário de Agostinho Neto, talvez devêssemos substituir parte das homenagens por uma reflexão mais profunda:

Estamos realmente a resolver os problemas do povo?

Se a resposta ainda não for suficiente, então o legado de Neto continua a ser, para todos nós, não apenas uma memória, mas também um desafio.

Porque Angola não precisa apenas de mais discursos sobre o seu passado. Angola precisa de dirigentes e cidadãos comprometidos com o seu presente e com o seu futuro.

E, neste 17 de Setembro, uma frase de Agostinho Neto continua a servir de ponto de partida para essa reflexão: “O mais importante é resolver os problemas do povo.”